{"id":32,"date":"2016-02-08T19:40:39","date_gmt":"2016-02-08T21:40:39","guid":{"rendered":"http:\/\/alames.org\/2016\/02\/08\/precisamos-tirar-o-foco-do-mosquito-e-centrar-nas-condicoes-e-situacoes-que-levam-a-ter-criadouros\/"},"modified":"2016-02-08T19:40:39","modified_gmt":"2016-02-08T21:40:39","slug":"precisamos-tirar-o-foco-do-mosquito-e-centrar-nas-condicoes-e-situacoes-que-levam-a-ter-criadouros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/precisamos-tirar-o-foco-do-mosquito-e-centrar-nas-condicoes-e-situacoes-que-levam-a-ter-criadouros\/","title":{"rendered":"Precisamos tirar o foco do mosquito e centrar nas condi\u00e7\u00f5es e situa\u00e7\u00f5es que levam a ter criadouros"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;Guerra ao mosquito&rdquo;. Nas &uacute;ltimas semanas, as manchetes sobre a epidemia do zika v&iacute;rus, transmitido pelo Aedes aegypti, abusaram da express&atilde;o e repercutiram &agrave; exaust&atilde;o a declara&ccedil;&atilde;o do ministro da Sa&uacute;de, Marcelo Castro, de que o pa&iacute;s vem perdendo feio a &ldquo;batalha&rdquo;. O titular da pasta, a presidente Dilma Rousseff e outras autoridades v&ecirc;m refor&ccedil;ando a mensagem de que a popula&ccedil;&atilde;o brasileira precisa se unir no &ldquo;combate&rdquo; para sair vitoriosa. A novidade da transmiss&atilde;o do zika no Brasil pelo mesmo mosquito que j&aacute; transmitia dengue e chikungunya, acrescida da trag&eacute;dia dos milhares de casos suspeitos de microcefalia em beb&ecirc;s parece n&atilde;o ter sido suficiente para que o governo brasileiro repensasse a estrat&eacute;gia de combate que vem sendo adotada, sem sucesso, h&aacute; 40 anos para o combate ao Aedes aegypti. &Eacute; o que alerta a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Sa&uacute;de Coletiva (Abrasco) como resultado do trabalho de cinco grupos de trabalho de pesquisadores que lan&ccedil;aram nesta ter&ccedil;a-feira, 2, a &lsquo;Nota T&eacute;cnica sobre microcefalia e doen&ccedil;as vetoriais relacionadas ao Aedes aegypti: os perigos das abordagens com larvicidas e fumac&ecirc;&rsquo;. Nessa entrevista, Lia Giraldo, professora da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas da Universidade de Pernambuco, pesquisadora aposentada do Centro de Pesquisas Aggeu Magalh&atilde;es (CPqAM\/Fiocruz) e membro do GT Sa&uacute;de e Ambiente da Abrasco explica os fundamentos da cr&iacute;tica ao paradigma qu&iacute;mico de controle do vetor e porque ele &eacute; ineficaz e perigoso para a sa&uacute;de humana e ambiental.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por que essa linha de a&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o poderosa e prevalente?<\/strong><\/p>\n<p>Ela deriva da forma hegem&ocirc;nica de se pensar a causalidade de uma doen&ccedil;a sem levar em conta o contexto. Esse modelo de causalidade &eacute; do come&ccedil;o do s&eacute;culo 20. Nele, busca-se o agente etiol&oacute;gico &ndash; a causa &uacute;nica &ndash; e tra&ccedil;a-se uma rela&ccedil;&atilde;o linear com a doen&ccedil;a. Isso leva a uma a&ccedil;&atilde;o. Notadamente, ao desenvolvimento de uma tecnologia espec&iacute;fica para combater aquele agente. &Eacute;, de fato, um racioc&iacute;nio que ainda prevalece na sa&uacute;de p&uacute;blica, est&aacute; presente nas ag&ecirc;ncias internacionais e, obviamente, interessa ao capital. Ent&atilde;o, quando voc&ecirc; me pergunta o porqu&ecirc; dessa linha de a&ccedil;&atilde;o ser t&atilde;o poderosa, me parece que &eacute; por uma conjun&ccedil;&atilde;o de interesses. Porque ela interessa tanto &agrave; agenda do mercado quanto &agrave; agenda pol&iacute;tica. Aos gestores t&ecirc;m interessado o caminho mais curto. Ao contr&aacute;rio, quando voc&ecirc; pensa no contexto h&aacute; que pensar em medidas mais complexas de m&eacute;dio e longo prazos. E isso n&atilde;o cabe no curto espa&ccedil;o de tempo de uma gest&atilde;o. Demanda planejamento e continuidade. Exige a&ccedil;&otilde;es integradas, intersetoriais, que abarquem todos os aspectos presentes na produ&ccedil;&atilde;o do fen&ocirc;meno.<\/p>\n<p><strong>Foi sempre assim?<\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; houve momentos em que a vis&atilde;o foi mais ampla, a partir de uma perspectiva de interven&ccedil;&atilde;o no ambiente. Se remontarmos &agrave; experi&ecirc;ncia de John Snow na Londres do s&eacute;culo 19, veremos que mesmo sem conhecer o agente etiol&oacute;gico da c&oacute;lera, ele compreendeu que aquela doen&ccedil;a estava se espalhando devido &agrave;s p&eacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es em que vivia grande parte da popula&ccedil;&atilde;o. Isso levou ao saneamento de Londres. No caso da febre amarela [in&iacute;cio do s&eacute;culo 20], a epidemia levou a reformas que envolveram urbaniza&ccedil;&atilde;o das cidades. Houve grande preocupa&ccedil;&atilde;o com o saneamento. S&atilde;o hist&oacute;rias que revelam que a a&ccedil;&atilde;o no contexto, n&atilde;o s&oacute; na causa, possibilita a solu&ccedil;&atilde;o sustent&aacute;vel do problema. Mas com o desenvolvimento tecnol&oacute;gico, com a perspectiva de ir por um caminho mais curto, buscar a vacina ou o antibi&oacute;tico, o quadro mais amplo foi deixado de lado. A quest&atilde;o &eacute; que o saneamento e a pol&iacute;tica urbana s&atilde;o estruturantes. Um bom exemplo &eacute; a tuberculose. Trata-se de uma doen&ccedil;a que tem vacina e antibi&oacute;tico. Que bom. Foi extinta? Longe disso. Continua ocorrendo, e cada vez em formas mais graves. Isso acontece porque nem a vacina, nem o antibi&oacute;tico sozinhos deram conta das condi&ccedil;&otilde;es em que vivem as pessoas. Esse racioc&iacute;nio pode ser ampliado para as doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas, as doen&ccedil;as cardiovasculares, que n&atilde;o podem ser resolvidas pelo modelo causalista: achar um agente etiol&oacute;gico que precisa ser atacado. S&atilde;o doen&ccedil;as complexas.<\/p>\n<p><strong>Esse paradigma, portanto, n&atilde;o &eacute; novidade?<\/strong><\/p>\n<p>Isso &eacute; muito conhecido e j&aacute; bastante discutido. Mas, apesar de todas as evid&ecirc;ncias, a a&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica se reporta a uma forma de racioc&iacute;nio que entra na economia da causalidade praticamente &uacute;nica. Parece que todos os gestores emburrecem quando est&atilde;o em uma situa&ccedil;&atilde;o como essa da epidemia. Existe uma press&atilde;o em dar uma resposta de for&ccedil;a, por assim dizer, quase militar. Busca-se o inimigo. &Eacute; preciso atacar o inimigo. Esse tipo de linguagem n&atilde;o ajuda o enfrentamento do problema.<\/p>\n<p><strong>Quando isso come&ccedil;ou a aparecer no Brasil dessa forma?<\/strong><\/p>\n<p>Em 1996, o equivocado Programa de Erradica&ccedil;&atilde;o do Aedes aegypt, tinha na sua primeira vers&atilde;o um forte componente de saneamento. Mas, logo em seguida, o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de fez uma segunda vers&atilde;o e eliminou o componente de saneamento. Em 2002, eles viram que essa meta de eliminar o mosquito n&atilde;o era fact&iacute;vel e mudaram o nome de &lsquo;Erradica&ccedil;&atilde;o&rsquo; para Plano Nacional de Controle da Dengue, vigente at&eacute; hoje. O saneamento foi esquecido. Se esse componente de saneamento tivesse sido mantido e os sucessivos governos tivessem avan&ccedil;ado na sua implementa&ccedil;&atilde;o hoje n&oacute;s ter&iacute;amos outra realidade. O que acontece &eacute; a descontinuidade das pol&iacute;ticas, a falta de sustenta&ccedil;&atilde;o, o personalismo que quer esgotar sua a&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o de uma gest&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Quais s&atilde;o as evid&ecirc;ncias que sustentam a inefic&aacute;cia do paradigma qu&iacute;mico para o controle do Aedes aegypti usado para dengue e repetido, agora, para a zika?<\/strong><\/p>\n<p>A dengue no Brasil deixou de ser apenas epid&ecirc;mica. &Eacute; end&ecirc;mica. Ou seja, antes, quando era epid&ecirc;mica, a cada quatro ou cinco anos t&iacute;nhamos marcadamente algumas epidemias. A&iacute; foram entrando mais sorotipos e passamos a ter mais v&iacute;rus circulando. Hoje s&atilde;o quatro. Por isso, o Brasil se tornou end&ecirc;mico, de fins de 1990 em diante. Fora isso, a dengue sempre foi considerada uma doen&ccedil;a benigna pela OMS [Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de]. Desde o s&eacute;culo 18 temos dengue. S&oacute; a partir das d&eacute;cadas de 1960 e 1970 &eacute; que come&ccedil;a a haver mortalidade. E isso coincide com a entrada do uso dos produtos qu&iacute;micos no controle vetorial. Antes da entrada dos venenos, dengue n&atilde;o matava.<\/p>\n<p><strong>Por isso a import&acirc;ncia de chamar aten&ccedil;&atilde;o para o uso cont&iacute;nuo dos larvicidas e fumac&ecirc;s?<\/strong><\/p>\n<p>A gente est&aacute; chamando aten&ccedil;&atilde;o para as disfun&ccedil;&otilde;es do uso do veneno. Os problemas de sa&uacute;de decorrentes do uso do veneno, que ningu&eacute;m estuda. Esses venenos foram introduzidos em 1968 para a dengue. Esse modelo n&atilde;o impediu a dispers&atilde;o do mosquito no territ&oacute;rio nacional. E isso porque o mosquito se tornou resistente. N&atilde;o impediu que o Brasil se tornasse end&ecirc;mico. E n&atilde;o impediu que uma doen&ccedil;a que a OMS considerava benigna alcan&ccedil;asse o grau de mortalidade que vemos hoje. Porque a doen&ccedil;a se tornou maligna? &Eacute; s&oacute; porque tem mais sorotipos circulando ou tem mais coisa? &Eacute; preciso que o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de responda essas perguntas. Nossa preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; centrar a cr&iacute;tica no modelo do mosquito. Eles dizem com todas as letras que o mosquito &eacute; o elo vulner&aacute;vel da cadeia de transmiss&atilde;o. Mas o elo vulner&aacute;vel somos n&oacute;s. O mosquito vem demonstrando bastante resist&ecirc;ncia a essa abordagem h&aacute; 40 anos.<\/p>\n<p><strong>Sobre vulnerabilidade da popula&ccedil;&atilde;o, a Nota T&eacute;cnica levanta uma importante discuss&atilde;o sobre a &aacute;gua. &Eacute; comum nas campanhas de combate &agrave; dengue alertas como &ldquo;n&atilde;o deixe &aacute;gua parada&rdquo;, levando a entender que &eacute; um descuido da popula&ccedil;&atilde;o, at&eacute; porque os exemplos mais recorrentes s&atilde;o vasos de plantas pneus. Mas voc&ecirc;s alertam que a falta de saneamento combinada &agrave; intermit&ecirc;ncia da &aacute;gua leva a popula&ccedil;&atilde;o mais pobre a estocar &aacute;gua. E tamb&eacute;m denunciam a contamina&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua de beber da popula&ccedil;&atilde;o nordestina h&aacute; d&eacute;cadas por larvicidas como o Temeph&oacute;s. Por que a potabilidade da &aacute;gua &eacute; importante para o controle do Aedes?<\/strong><\/p>\n<p>O Temeph&oacute;s foi introduzido em 1968 no Nordeste por recomenda&ccedil;&atilde;o das For&ccedil;as Armadas americanas. Isso est&aacute; documentado. Ent&atilde;o, a popula&ccedil;&atilde;o nordestina est&aacute; tomando &aacute;gua com larvicida h&aacute; mais de 50 anos. Isso nunca foi estudado, avaliado, nada. Ningu&eacute;m diz que a &aacute;gua n&atilde;o &eacute; mais pot&aacute;vel. Se a &aacute;gua tem larva, ela n&atilde;o &eacute; mais pot&aacute;vel, certo? Pois &eacute;, se tem larvicida tamb&eacute;m n&atilde;o. Agora, recentemente, o coordenador do Programa Nacional do Controle da Dengue recomendou que fosse usado larvicida nos carros-pipa. J&aacute; que as pessoas s&atilde;o desobedientes e n&atilde;o condicionam corretamente a &aacute;gua, ent&atilde;o vamos j&aacute; botar no carro-pipa. Isso &eacute; um absurdo. No Nordeste, n&oacute;s vivemos um processo cont&iacute;nuo de racionamento de &aacute;gua. E justamente a popula&ccedil;&atilde;o mais pobre n&atilde;o estoca &aacute;gua porque quer, mas porque a &aacute;gua n&atilde;o chega. &Eacute; um processo de intermit&ecirc;ncia no abastecimento, conjugado com falta de saneamento que leva a popula&ccedil;&atilde;o a p&ocirc;r &aacute;gua nos baldinhos. Se o foco n&atilde;o fosse o mosquito, mas as condi&ccedil;&otilde;es que possibilitam o surgimento de criadouros, o conceito de potabilidade seria fundamental para recuperar nas pessoas a consci&ecirc;ncia da prote&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua. Para que as pessoas cuidem da &aacute;gua, impe&ccedil;am que ela se contamine. Permitiria o envolvimento mais proativo da popula&ccedil;&atilde;o a partir de algo que &eacute; caro a todos n&oacute;s. &Aacute;gua &eacute; vida. N&atilde;o pode ser polu&iacute;da de jeito nenhum. Durante muito tempo, quando as doen&ccedil;as diarreicas prevaleciam e matavam muitas crian&ccedil;as, todo o discurso da Sa&uacute;de P&uacute;blica era &#8220;precisamos da &aacute;gua pot&aacute;vel&#8221;. Precisamos proteger a &aacute;gua. O conceito de potabilidade &eacute; muito importante na Sa&uacute;de P&uacute;blica. Tanto que quem controla a qualidade da &aacute;gua &eacute; o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de. S&oacute; que o pr&oacute;prio Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de envenena a &aacute;gua da popula&ccedil;&atilde;o brasileira. Ele permite que larvicidas sejam colocados na &aacute;gua.<\/p>\n<p><strong>O tema da &aacute;gua leva outra quest&atilde;o que &eacute; a recorrente responsabiliza&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo e das fam&iacute;lias quando o assunto &eacute; epidemia causada por Aedes. As autoridades t&ecirc;m refor&ccedil;ado a participa&ccedil;&atilde;o popular para &ldquo;vencer a guerra&rdquo;.<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; um discurso importante, mas [o foco na responsabilidade de indiv&iacute;duos e fam&iacute;lias] nunca pode ser maior do que a responsabilidade do Estado com a quest&atilde;o ambiental e com as desigualdades sociais. Onde est&aacute; a maior parte dos casos de dengue? Onde est&atilde;o os casos de microcefalia? &Eacute; s&oacute; olhar o mapa. O Programa de Dengue precisa passar por uma grande revis&atilde;o. E tem que se assumir de uma vez por todas que as doen&ccedil;as [dengue, chikungunya e zika] n&atilde;o s&atilde;o democr&aacute;ticas. H&aacute; uma iniquidade na distribui&ccedil;&atilde;o. As pessoas mais vulner&aacute;veis s&atilde;o as mais pobres, que est&atilde;o em ambientes sem saneamento, mais expostas &agrave; intermit&ecirc;ncia da &aacute;gua.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc;s falam sobre a insustentabilidade do modelo qu&iacute;mico em rela&ccedil;&atilde;o ao ciclo de resist&ecirc;ncia. Pode explicar?<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; bem evidente a resist&ecirc;ncia dos insetos aos produtos. O mosquito &eacute; muito robusto do ponto de vista biol&oacute;gico. Ele tem uma estrat&eacute;gia de sobreviv&ecirc;ncia: a ovo deposi&ccedil;&atilde;o. Ele ovo deposita em tudo quanto &eacute; lugar. N&atilde;o &eacute; s&oacute; na &aacute;gua limpa, como se propagandeia. &Eacute; tamb&eacute;m nos telhados, nas calhas, nos pneus, tampinhas, folhas. Se ele tem um hotel cinco estrelas dispon&iacute;vel, ele vai dar a prefer&ecirc;ncia e depositar mais ovos ali. S&atilde;o ovos que ficam encistados no ambiente durante muito tempo. Passa tempo, vem uma &aacute;gua e o ovo eclode. Nesse processo de reprodu&ccedil;&atilde;o t&atilde;o acelerado, ele faz muta&ccedil;&otilde;es. E uma delas &eacute; a defesa contra o veneno. Ent&atilde;o ele se torna resistente. Com os agrot&oacute;xicos usados na agricultura acontece tamb&eacute;m. A praga fica resistente. Ou aplica em maior concentra&ccedil;&atilde;o, ou muda ou associa a outro veneno e assim aumenta a toxicidade. Para a bact&eacute;ria, fungo, bicho-alvo. Mas tamb&eacute;m para humanos que est&atilde;o expostos. N&atilde;o tem fim.<\/p>\n<p><strong>Dessa forma potencializa-se um desequil&iacute;brio ecol&oacute;gico?<\/strong><\/p>\n<p>Voc&ecirc; mata os predadores naturais, causando desequil&iacute;brio ecol&oacute;gico. Mata passarinho, sapo, lagartixa, aranha, outros mosquitos que competem [com o Aedes]. Os agentes de endemias mais antigos que aplicam os venenos sabem muito bem disso. O que a gente est&aacute; chamando aten&ccedil;&atilde;o &eacute; da insustentabilidade desse modelo. Seja por sua baixa efic&aacute;cia em rela&ccedil;&atilde;o ao seu foco, que seria eliminar ou diminuir a quantidade de mosquito, e ainda exp&otilde;e a popula&ccedil;&atilde;o a situa&ccedil;&otilde;es de risco que n&atilde;o s&atilde;o sequer avaliadas. Ningu&eacute;m avalia. Do ponto de vista precaucion&aacute;rio, a regra &eacute; n&atilde;o ter precau&ccedil;&atilde;o nenhuma.<\/p>\n<p><strong>O que &eacute; o princ&iacute;pio da precau&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>O princ&iacute;pio da precau&ccedil;&atilde;o nasce quando, na d&eacute;cada de 1960, as empresas mandavam navios jogar produtos t&oacute;xicos no mar, achando que diluindo no mar n&atilde;o ia acontecer nada. Os ambientalistas come&ccedil;aram a denunciar essa polui&ccedil;&atilde;o deliberada dos mares e as empresas responderam: &#8220;ent&atilde;o prova!&#8221;. Prova que esses t&oacute;xicos est&atilde;o causando danos na natureza. Os ambientalistas viraram o jogo e respondem: &#8220;prova que n&atilde;o est&aacute;&#8221;. &Eacute; a mesma dificuldade. &Eacute; o poluidor que tem que provar que n&atilde;o est&aacute; poluindo. Chama-se invers&atilde;o do &ocirc;nus da prova. Porque uma coisa &eacute; voc&ecirc; ter evid&ecirc;ncias em estudos experimentais, no laborat&oacute;rio, mostrando que os peixes, as algas, as c&eacute;lulas humanas sofrem problemas, altera&ccedil;&otilde;es quando expostos a esses produtos. Outra coisa &eacute; quando voc&ecirc; est&aacute; na natureza e trabalha com popula&ccedil;&otilde;es. Fica consideravelmente mais dif&iacute;cil. Ent&atilde;o quando voc&ecirc; tem evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas e estudos experimentais ou moleculares ou ensaios in vitro de que o produto &eacute; t&oacute;xico, n&atilde;o precisa esperar a prova do dano na popula&ccedil;&atilde;o ou na natureza para tomar medidas cautelares de precau&ccedil;&atilde;o. Por isso o termo: princ&iacute;pio a precau&ccedil;&atilde;o. Na Europa, esse princ&iacute;pio rege normas. &Eacute; um princ&iacute;pio importante para quem atua na Sa&uacute;de P&uacute;blica, que tem como miss&atilde;o primordial a preven&ccedil;&atilde;o e a prote&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de. S&oacute; que a Sa&uacute;de P&uacute;blica tem a prerrogativa de usar produtos proibidos. Como o DDT. Todo mundo sabe que ele tem efeitos org&acirc;nicos persistentes. Mesmo assim, por muito tempo, a OMS reintroduziu o DDT no controle de mal&aacute;ria na &Aacute;frica sob a alega&ccedil;&atilde;o de que &eacute; mais barato. De que os pa&iacute;ses s&atilde;o pobres e n&atilde;o t&ecirc;m dinheiro para comprar outros produtos.<\/p>\n<p><strong>&Eacute; a mesma situa&ccedil;&atilde;o do Malathion?<\/strong><\/p>\n<p>No caso do Malathion n&atilde;o &eacute; mais princ&iacute;pio da precau&ccedil;&atilde;o. Todos os estudos j&aacute; mostraram que ele &eacute; potencialmente cancer&iacute;geno para humanos. E esse ac&uacute;mulo de informa&ccedil;&otilde;es foi t&atilde;o grande que a IARC reconheceu essa evid&ecirc;ncia. Queremos mostrar que, apesar de ser um cancer&iacute;geno, o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de continua prescrevendo. Queremos mostrar que esse e outros produtos qu&iacute;micos s&atilde;o utilizados em uma concentra&ccedil;&atilde;o alt&iacute;ssima e podem provocar, por exemplo, dist&uacute;rbios neurol&oacute;gicos que n&atilde;o s&atilde;o sequer aventados. A&iacute; voc&ecirc; pode dizer que a popula&ccedil;&atilde;o tem Guillen-Barr&eacute; por causa do v&iacute;rus quando pode ser por causa do veneno.<\/p>\n<p><strong>Porque no Nordeste e no Brasil est&aacute; diferente?<\/strong><\/p>\n<p>O que de diferente aconteceu no Nordeste em 2014? A gente fez algumas coloca&ccedil;&otilde;es. Uma delas &eacute; a entrada do larvicida novo. O pr&oacute;prio Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de em uma Nota T&eacute;cnica descreve seu mecanismo de a&ccedil;&atilde;o. Ele &eacute; juven&oacute;ide, o que significa dizer que age por altera&ccedil;&atilde;o no modelo esquel&eacute;tico no processo de desenvolvimento da larva. Provoca m&aacute;-forma&ccedil;&atilde;o. Tem algu&eacute;m fazendo algum estudo de biologia molecular para entender as altera&ccedil;&otilde;es no DNA afetado? Ser&aacute; que poderia ter correspond&ecirc;ncia ao s&iacute;tio do DNA humano do ponto de vista dessas m&aacute;-forma&ccedil;&otilde;es? N&atilde;o sabemos. Podemos ter um conjunto de condi&ccedil;&otilde;es que potencializaram e criaram uma situa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o diferenciada no Brasil que essa epidemia eclodiu desse jeito. S&atilde;o perguntas. E a nossa obriga&ccedil;&atilde;o como cientista &eacute; fazer perguntas.<\/p>\n<p><strong>As conclus&otilde;es a que o Minist&eacute;rio chegou em rela&ccedil;&atilde;o a zika e microcefalia seguem que linha de pensamento?<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o foge do modelo. Como foi imputado a microcefalia ao zika e imputado que o Aedes transmite o zika, foi feita essa conex&atilde;o e, em fun&ccedil;&atilde;o disso, o que o governo tem &agrave; m&atilde;o? O modelo de controle vetorial da dengue. Mas o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de tomou uma decis&atilde;o. Construiu essa hip&oacute;tese, acreditou nela. S&oacute; que o rem&eacute;dio que eles est&atilde;o prescrevendo &eacute; a mesmice que n&atilde;o evitou nenhuma epidemia de dengue. O problema &eacute; o mosquito. Se n&atilde;o resolveram o problema do mosquito para a dengue, como &eacute; que, agora, o modelo vai dar certo para o zika? Foi feita a conex&atilde;o entre Aedes, zika e microcefalia, mas ainda h&aacute; d&uacute;vidas em rela&ccedil;&atilde;o a isso. At&eacute; agora os entomologistas n&atilde;o fizeram estudos de compet&ecirc;ncia vetorial do Aedes para o zika no contexto brasileiro. Sabe-se que pode transmitir, tudo bem, mas no nosso contexto ningu&eacute;m sabe ainda como isso aconteceu. Segundo, n&atilde;o tivemos uma sorologia e n&atilde;o soubemos quem de fato teve ou n&atilde;o teve zika. E entre a popula&ccedil;&atilde;o que teve [zika], as gestantes que tiveram. E tamb&eacute;m quantas crian&ccedil;as cujas m&atilde;es tiveram zika foram infectadas ou n&atilde;o. Para chegar a alguma conclus&atilde;o, tem que fazer um quadrinho que &eacute; assim: m&atilde;e infectada x m&atilde;e n&atilde;o infectada; crian&ccedil;a infectada x crian&ccedil;a n&atilde;o infectada; e das crian&ccedil;as infectadas, a distin&ccedil;&atilde;o entre as que tiveram microcefalia e as que n&atilde;o tiveram microcefalia. Isso se chama estudo de caso controle. S&oacute; que tem que ser feito com o passado. S&oacute; v&atilde;o fazer no futuro. Mas n&atilde;o temos a informa&ccedil;&atilde;o mais fundamental, que &eacute; quem foi infectado e quem n&atilde;o foi entre as gestantes. N&atilde;o se sabe. Ent&atilde;o, quando voc&ecirc; pega um caso de uma m&atilde;e com zika que gerou uma crian&ccedil;a com microcefalia, isso &eacute; um dado. N&atilde;o &eacute; suficiente para fazer essa rela&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um caso. Tem, &eacute; claro, uma coincid&ecirc;ncia. Algo diferente. Provavelmente a hip&oacute;tese viral &eacute; grande. Isso tem que ser levado em considera&ccedil;&atilde;o. Mas ser&aacute; que s&oacute; o v&iacute;rus? Porque em outros pa&iacute;ses que tiveram epidemia isso n&atilde;o foi suficiente.<\/p>\n<p><strong>&lsquo;Desenvolvimento Tecnol&oacute;gico, Educa&ccedil;&atilde;o e Pesquisa&rsquo; &eacute; um dos tr&ecirc;s eixos no Plano Nacional de Enfrentamento da Microcefalia. Na nota voc&ecirc;s defendem mais financiamento e incentivo para pesquisas que estudem essas rela&ccedil;&otilde;es entre o uso de produtos qu&iacute;micos e as consequ&ecirc;ncias para a sa&uacute;de humana e ambiental. O foco do governo, contudo, parece ser o desenvolvimento de tecnologias. Como avaliou isso?<\/strong><\/p>\n<p>Essa &eacute; a novidade. Quando voc&ecirc; fala em v&iacute;rus vem o apelo da ind&uacute;stria e dos virologistas, da produ&ccedil;&atilde;o da vacina, da biotecnologia, at&eacute; do mosquito transg&ecirc;nico. Eu fui numa reuni&atilde;o da Funda&ccedil;&atilde;o de Apoio &agrave; Pesquisa de Pernambuco. Chegando l&aacute; havia um grupo de desenvolvimentistas de software para fazer vigil&acirc;ncia epidemiol&oacute;gica em tempo real, um grupo interessado em fazer os estudos epidemiol&oacute;gicos, e outro grupo que defendia trocar o larvicida qu&iacute;mico por larvicida biol&oacute;gico. Nada disso muda o modelo. Eu falei que era estranho que na reuni&atilde;o n&atilde;o houvesse nenhum entomologista, especialmente porque em Pernambuco temos &oacute;timos entomologistas. Tamb&eacute;m n&atilde;o havia nenhum engenheiro sanit&aacute;rio. Porque se &eacute; para falar em tecnologias para a solu&ccedil;&atilde;o do problema, onde est&atilde;o os engenheiros sanitaristas para propor saneamentos com tecnologias adaptadas &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es em que a densidade ocupacional &eacute; muito alta? Em morros, em alagados? Isso &eacute; tecnologia tamb&eacute;m. Mas o apelo &eacute; para as biotecnologistas. &Eacute; a vis&atilde;o hegem&ocirc;nica de que esse conhecimento hiper-especializado &eacute; que &eacute; ci&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, mais uma vez, diante desta trag&eacute;dia, n&atilde;o se pensa de forma complexa, pela determina&ccedil;&atilde;o social do problema, mas, ao contr&aacute;rio, s&oacute; se pensa no pequeno e no umbigo. E a&iacute; voc&ecirc; v&ecirc; as dificuldades em vingar um pensamento estrat&eacute;gico.<\/p>\n<p><strong>Essa vis&atilde;o &eacute; un&acirc;nime?<\/strong><\/p>\n<p>A Opas [Organiza&ccedil;&atilde;o Pan-Americana da Sa&uacute;de] j&aacute; est&aacute; falando que &eacute; uma pandemia que vai se alastrar pelas Am&eacute;ricas e a tecnologia &eacute; a &uacute;nica solu&ccedil;&atilde;o. J&aacute; preparando as pessoas para se conformarem com a desgra&ccedil;a. Tem um fatalismo embutido nesse discurso que &eacute; ideol&oacute;gico. Faz as pessoas aceitarem de alguma maneira ser pobres, estarem expostas, gestarem beb&ecirc;s com microcefalia. E o que se vai fazer? A culpa &eacute; do mosquito. Ent&atilde;o guerra ao mosquito. O modelo &eacute; bem montado e serve aos interesses da ind&uacute;stria e daqueles que se locupletam com isso. Ningu&eacute;m &eacute; contra o desenvolvimento tecnol&oacute;gico. Somos contra o reducionismo. Somos contra colocar as coisas nesse n&iacute;vel em que nunca se declara a responsabilidade do Estado na perpetua&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es que propiciam a vulnerabilidade. Repito: ningu&eacute;m &eacute; contra a vacina. Mas a vacina n&atilde;o &eacute; panaceia. Est&aacute; a&iacute; o exemplo da tuberculose. A vacina &eacute; uma solu&ccedil;&atilde;o importante dentro de um conjunto de outras solu&ccedil;&otilde;es. &Eacute; como na discuss&atilde;o sobre a matriz energ&eacute;tica. A solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas a energia solar ou apenas a energia e&oacute;lica. &Eacute; a combina&ccedil;&atilde;o de tudo em movimento junto.<\/p>\n<p><strong>Porque as vozes cr&iacute;ticas a essa abordagem n&atilde;o v&ecirc;m recebendo a devida aten&ccedil;&atilde;o? Isso se deve a um racha na pr&oacute;pria sa&uacute;de p&uacute;blica, apesar de certo consenso no campo ao redor de conceitos como determina&ccedil;&atilde;o socioambiental da sa&uacute;de?<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores que lutaram pelo tema da sa&uacute;de do trabalhador quando viraram governo fugiram desse tema. N&atilde;o queriam nem ouvir falar. O modelo pol&iacute;tico &eacute; o de financiamento das empresas. Ent&atilde;o, quando voc&ecirc; vira gestor, entra em &#8220;raz&otilde;es de Estado&#8221; que a pr&oacute;pria raz&atilde;o desconhece. Sa&uacute;de ambiental, sa&uacute;de do trabalhador, vigil&acirc;ncia sanit&aacute;ria s&atilde;o temas imersos em conflito de interesses. A gente vira maldito. Ningu&eacute;m gosta de quem trabalha com movimento social, com os sindicatos, enfim, onde est&atilde;o os problemas. De forma concreta aflorando os problemas, tentando dar transpar&ecirc;ncia disso para a sociedade. E tem uma parcela que ganha suas bolsas de pesquisa em verdadeiros loteamentos internos, de amizade, etc. e que alimentam linhas de investiga&ccedil;&atilde;o que, tudo bem, t&ecirc;m sua import&acirc;ncia, mas est&atilde;o longe de alimentar transforma&ccedil;&atilde;o social. &Eacute; um certo acomodamento: no seu mundo, no seu m&eacute;todo, com os seus pares. Nosso discurso &eacute; contra-hegem&ocirc;nico. E esse discurso incomoda.<\/p>\n<p>Enrevista concedida &agrave; Maira Mathias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Guerra ao mosquito&rdquo;. Nas &uacute;ltimas semanas, as manchetes sobre a epidemia do zika v&iacute;rus, transmitido pelo Aedes aegypti, abusaram da express&atilde;o e repercutiram &agrave; exaust&atilde;o a declara&ccedil;&atilde;o do ministro da Sa&uacute;de, Marcelo Castro, de que o pa&iacute;s vem perdendo feio a &ldquo;batalha&rdquo;. O titular da pasta, a presidente Dilma Rousseff e outras autoridades v&ecirc;m refor&ccedil;ando a mensagem de que a popula&ccedil;&atilde;o brasileira precisa se unir no &ldquo;combate&rdquo; para sair vitoriosa. A novidade da transmiss&atilde;o do zika no Brasil pelo mesmo mosquito que j&aacute; transmitia dengue e chikungunya, acrescida da trag&eacute;dia dos milhares de casos suspeitos de microcefalia em beb&ecirc;s parece [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-32","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-capitulos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alames.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}